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 O RETORNO AO SER

 

Quando bebermos água, não nos descuremos da fonte... nem o exemplo dos que a ela nos conduziram. Mas reconheço de pronto e de bom grado que nada, nem ninguém, poderá jamais conter a verdadeira natureza do Taijiguan, ainda que fosse numa biblioteca enciclopédica.

    Ginástica suave, descontração em movimento, ioga chinês, tomada de consciência e sabedoria do corpo, exercício terapêutico, técnica da longa vida, escola do domínio de si mesmo. O Taijiguan é, por certo, tudo isso. E tudo isso se aprende. Mas ele é ainda muito mais do que isso. Assim, e muito prosaicamente, o Taijiguan é também uma técnica de combate, uma arte marcial que goza de todas as vantagens e de todos os direitos, cuja eficácia, conquanto não seja evidente, não é menos fácil de ser provada por um especialista; e esse aspecto, felizmente, se redescobre; e também se aprende.

     Mais misteriosamente, o Taijiguan é uma via de realização do ideal taoísta, uma escola filosófica que desemboca numa visão intuitiva da Ultima Verdade, um retomo à Unidade Primordial através da pesquisa de uma força que não se aplica no desenvolvimento muscular, mas na concentração da energia interna que todo homem possui e que faz dele uma parcela do Universo. E isso se descobre, simplesmente.

     Praticar o Taijiguan, mais do que aprender uma técnica enquanto técnica é aprender um saber-fazer que pode permitir que se descubra, um dia, um saber-ser. Sob esse aspecto, o Taijiguan faz parte de um conjunto cultural de raízes milenares; é um pedaço dessa memória coletiva que o homem extrai do humo das civilizações; pois numerosas foram as que, na procura da harmonia do corpo e do espírito, propuseram uma via de realização própria, que é também a do Conhecimento, sede eterna do homem atarantado pela necessidade de se situar no universo.

     Por trás de seus gestos lentos existe um verdadeiro código de decifração de si mesmo, e, portanto, de todo o resto, microcosmo e macrocosmo, númenos e fenômenos. Talvez seja tudo isso que sente confusamente aquele que, sem ser levado por uma tentativa mística, encontra pela primeira vez o Taijiguan; freqüentemente, com efeito, constrangido num universo social em que sofre coações cada vez mais numerosas, o indivíduo busca um novo equilíbrio, que só pode passar por uma redefinição de si mesmo em relação aos seus pontos de referência clássicos; ele dá-se pressa, então, a subscrever uma forma de expressão corporal que se apresenta como um regresso ao natural, um redescobrimento da espontaneidade, um aprendizado paciente das virtudes do “não-agir”. Perseguindo o ego fútil, o Taijiquan é uma volta ao ser em lugar do parecer.

    Pratica-se, cada vez mais, o Taijiguan no mundo todo, Europa, Estados Unidos, Brasil e uma coisa aparecem claramente: o Taijiguan é uma arte de viver. Assim concebido e praticado, e apesar de uma eficácia em combate que sentimos latente num alto grau de prática, o Taijiguan é, decerto, um instrumento de paz.

    Existem, numerosos livros sobre o assunto, mas o sentido do pormenor não implica a existência de um texto pesado, tanto mais que, nesse caso, a tentação de intelectualizar a propósito de tudo esconde a prática verdadeira.

    Aos que acabam de descobrir o Taijiguan, faço votos para que esta página os incite a dar o primeiro passo, ou a ir mais longe, na via do retorno ao Ser em si. Não é mais que uma questão de tempo, vontade e coração.

 

Habersetzer,Roland. TAIJIGUAN esporte e cultura

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