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REFERÊNCIA HISTÓRICA
Para o Ocidente, quando não a encaramos sob o aspecto atual, a China, muitas vezes, é apenas o Império do Meio, dos letrados dos calígrafos, que buscavam a refinamento em todas as circunstâncias A China foi constantemente ameaçada por guerras tanto de fronteiras quanto internas, e como conseqüência desenvolveu vigorosa tradição de autodefesa. Deixar isso de lado seria esquecer a realidade de um povo numeroso e essencialmente rural. Daí que as artes militares desempenhassem sempre um papel importante na civilização chinesa cujo ideal, aliás, era o equilíbrio entre as virtudes Civis e as militares. O Taiji quan é uma dessas técnicas de autodefesa. O termo significa técnica e combate à mão descoberta da Suprema Cumeeira ‘ opõe-se no Tajji iian, técnica da espada do Taiji ou Taiji dao, técnica do sabre de Taiji’. E foi incluído pelos chineses entre as artes marciais wushu Na tradição chinesa a força guerreira destina-se menos a atacar do que se defender e a instaurar a grande paz (taiping), termo que voltamos a encontrar ao longo de toda a história do império. Grupos ou sociedades secretos tanto quanto certos indivíduos que se apresentam corno defensores da justiça, têm-se esforçado por concretizar esse ideal da grande paz. Ao lado do exército imperial, surgiram heróis cujo objetivo era preconizar a justiça, e que, nesse afã chegavam a sacrificar a própria vida e não hesitavam em opor-se a uma ordem imperial quando este fosse motivo de injustiça. Diz um adágio chinês a propósito deles: ¨Assim que topavam com a desordem no caminho, sacavam da espada para prestar sua ajuda ¨. Tais ações cavalheirescas eram muito respeitadas e admiradas por um povo que, às vezes, em conseqüência, era vítima não só da rapacidade de funcionários, mas também dos ataques de bandidos. A literatura popular pródiga em histórias desses heróis, apresentados como modelos ao leitor. Entre as mais célebres podemos citar o romance À beira d’água publicado durante a dinastia Ming, que narra os feitos de cavaleiros andantes e reflete muito bem o estado da sociedade camponesa da época. Igualmente célebre é o Romance dos Três Ramos, em que se contam as proezas de Zhang Fei, Liu Pei e Guanyu; este último, aliás, divinizado, transformou-se no protetor das aldeias. A dinastia Qing (Manchu) (1644-1912) conheceu uma floração desses romances de capa e espada, cujos heróis são dotados de inúmeros poderes sobrenaturais. A existência dos heróis cavalheirescos e populares foi considerada por Sima Qian, primeiro historiador oficial da China, fenômeno tão importante que, em suas Lembranças históricas ele lhes dedica duas biografias, a ‘Biografia dos assassinos” e a <‘Biografia dos cavaleiros andantes”, a última das quais vem precedida desta citação do Hanfeizi, obra jurídica do século III a.C.: Os confucionistas embaraçam a lei com seus escritos e os cavaleiros andantes violam os interditos empregando a força; ambos são condenáveis”. Historiador da corte, Sima Oian não podia expressar sua opinião pessoal, mas tudo indica que, colocando essa citação na primeira página das biografias, pretendesse mostrar isenção em relação ao texto subseqüente que deixa transparecer certa simpatia pelos cavaleiros de cuja existência nos dá notícia. Os cavaleiros andantes eram vistos com temor pelo poder central, ao qual não hesitavam opor-se; e esse temor era bem justificado visto que eles participaram da derrubada de diversas dinastias, entre as quais a Yuan. Em suas biografias, Sima Oian distingue várias espécies de cavaleiros: os cavaleiros plebeus, os das aldeias e os das cidades. Entretanto, diferentes estudos consagrados a esses homens não se harmonizam no sentido de fazer deles um grupo social particular. Em geral, os cavaleiros andantes e os heróis agiam à testa de milícias que eles mesmos formavam ou que encontravam, já formadas, nas aldeias. Parece que, no decorrer da história chinesa, a maioria das aldeias se armou de uma estrutura de autodefesa mais ou menos aprimorada segundo a sua importância. Podia ser, assim, numa família inteira em cujo seio se desenvolvia o ensino das artes marciais. Quanto à origem social dos membros das milícias, a literatura popular raramente a precisa, embora pareça certo que elas acolhiam grande número de filhos de famílias pobres. Foi numa dessas milícias camponesas que no século XVII surgiu o Taiji quan. A maioria dos mestres era de baixa extração social, e muitos não sabiam ler nem escrever; documentos autênticos, escritos por eles, são, portanto, muito raros e relativamente recentes.(...) Ademais, a existência de documentos de valor não foi, de maneira alguma, favorecida pelo desprezo que os letrados votavam aos camponeses, não raro incultos praticantes das artes marciais, nem pelas rivalidades entre as milícias, que conservavam, zelosas, o segredo de seu ensino. Com efeito, foi só entre o fim do século XIX e o princípio do XX que certos lutadores forcejaram por anotar o que sabiam ou transcrever as palavras do mestre. Na maior parte das vezes, porém, a arte se transmitia oralmente de pai para filho, no seio da mesma família ou da mesma milícia. Constituiu exceção a essa regra Yang Luchan, professor de boxe, acolhido pela família Chen, onde recebeu o ensino do Taiji quan, que, em seguida, difundiu em Pequim. Foi a partir desse mesmo Yang Luchan que o Taiji quan evoluiu da técnica de combate para a disciplina psicossomática e o esporte popularizado. A partir de 1925, tentaram introduzi-lo na educação escolar e ele foi ensinado aos professores de educação física. Suprimiram-se movimentos de execução difícil para colocar sua prática ao alcance dos velhos e dos amadores e até dos não-especialistas em artes marciais, o que fez que ele passasse a ser, principalmente, uma ginástica, mas também uma técnica terapêutica. Este último aspecto é o que tende a desenvolver-se atualmente na China Popular. Além disso, por utilizar e desenvolver a energia interior, através de um trabalho respiratório, essa arte marcial se aparenta com as técnicas taoístas de longevidade e é também considerada uma arte da longa vida.
- Despeux, Catherine.Arte marcial técnica da longa vida. |